José de Alencar nasceu em 1829, na fazenda de Messejana, no Ceará, e ainda menino mudou-se com a família para o Rio de Janeiro, onde viveria a maior parte de sua vida. Formado em Direito pela Faculdade de São Paulo, dividiu-se entre a advocacia, o jornalismo e a política — chegou a deputado e a Ministro da Justiça do Império —, mas foi nas páginas dos folhetins cariocas que construiu sua verdadeira vocação, a de fundar, com prosa vibrante e ambição quase missionária, uma literatura quie fosse quie fosse genuinamente brasileira.
Autor de mais de vinte romances, Alencar é a figura central do romantismo nacional, aquele que soube dar voz literária tanto ao índio das florestas quanto ao sertanejo do interior e ao homem urbano da Corte. De sua pena nasceram Iracema, Senhora e Lucíola, entre tantas outras obras que se tornaram clássicas, sempre movidas pelo mesmo projeto: o de forjar, na língua e nos temas, uma identidade literária própria para o jovem país que se libertava, aos poucos, da tutela cultural portuguesa.
É desse mesmo impulso fundador que nasce O Guarani, publicado em 1857, romance que consagrou Alencar como o grande criador do indianismo romântico brasileiro e que, décadas depois, inspiraria a célebre ópera de Carlos Gomes. Morto precocemente em 1877, vítima de tuberculose, José de Alencar deixou uma obra que atravessou o tempo e que segue, até hoje, entre as mais lidas e mais amadas da literatura brasileira.
Alencar foi também um homem de ideias firmes sobre a própria língua que praticava: defendeu, com veemência incomum para sua época, que o português falado no Brasil merecia autonomia frente às normas rígidas de Portugal, incorporando à sua prosa os ritmos, os neologismos e as expressões que ouvia no convívio cotidiano com o povo brasileiro. Essa posição, motivo de embates acalorados com críticos mais conservadores, seria décadas depois reivindicada pelos modernistas de 1922 como um dos primeiros gestos de emancipação literária do país, o que faz de Alencar não apenas um contador de histórias, mas um pensador pioneiro da própria ideia de literatura nacional.