Por onde começar a ler Machado de Assis?
Começar a ler Machado de Assis é uma decisão menos trivial do que parece. Não porque falte por onde, mas porque sobra — e porque a porta de entrada que se escolhe condiciona, de algum modo, a primeira imagem que o leitor faz do escritor. Entre as muitas hipóteses possíveis, duas se impõem com frequência nas conversas de quem aconselha principiantes: a novela O Alienista, de 1882, e o romance Dom Casmurro, de 1899. São obras de natureza diversa, e cada uma oferece um retrato distinto, embora igualmente fiel, do gênio de Cosme Velho. Vale a pena examinar o que cada caminho tem a favor.
Há boas razões para que o primeiro contato se dê por O Alienista. A primeira delas é de ordem prática, mas nem por isso desprezível: trata-se de uma novela curta, lida em uma ou duas sentadas, sem a exigência de fôlego que um romance impõe a quem ainda está se ambientando à prosa machadiana. Quem teme não terminar encontra ali um compromisso modesto e uma recompensa imediata. A história de Simão Bacamarte, o eminente médico que se instala em Itaguaí e funda a Casa Verde para estudar e tratar a loucura, é de uma clareza exemplar no enredo e de uma profundidade desconcertante no que insinua. Bacamarte começa internando os notórios desvairados da vila, depois passa a recolher quase toda a população sob o argumento de que a desrazão é a regra e não a exceção, até que, levando a própria lógica ao extremo, conclui que o único espírito perfeitamente equilibrado, e portanto verdadeiramente anômalo, é ele mesmo.
O que essa fábula oferece ao leitor estreante é Machado em estado concentrado. Toda a ironia que percorrerá os grandes romances está ali, destilada, manejada com uma economia que torna o efeito ainda mais visível. A sátira da ciência que se arroga autoridade absoluta, a desconfiança diante de qualquer sistema que pretenda definir de uma vez por todas o que é são e o que é insano, a relatividade dos juízos humanos e a comédia silenciosa do poder são temas que o leitor apreende quase sem perceber, porque vêm embrulhados num enredo que diverte antes de inquietar. Começar por aqui é aprender a ler Machado num registro em que o riso vem primeiro e a vertigem depois, sem que a densidade psicológica de obras maiores intimide quem ainda não tomou intimidade com o estilo.
Defender que se comece por Dom Casmurro, por outro lado, é apostar em outra forma de fidelidade ao autor. Se O Alienista mostra Machado em miniatura, Dom Casmurro o mostra em plena maturidade, no ponto mais alto daquilo que costuma se chamar a segunda fase do escritor. É também, convém lembrar, o livro pelo qual Machado entrou definitivamente no imaginário brasileiro: começar por ele é ganhar de saída a chave de uma quantidade imensa de referências culturais, das discussões de sala de aula às alusões cotidianas a Capitu e aos seus olhos de ressaca. Quem se inicia por aqui não lê apenas um romance; entra numa conversa que o país inteiro mantém há mais de um século.
O argumento decisivo, contudo, é de outra natureza. Em Dom Casmurro está a invenção mais original de Machado, aquela que o coloca ao lado dos maiores prosadores de qualquer língua: o narrador que não merece confiança. Bento Santiago conta a própria vida em retrospecto, dá sua versão do amor de infância por Capitu, da promessa feita à mãe, do seminário, da amizade com Escobar, do casamento e da suspeita de adultério que envenena tudo. E o leitor descobre, página após página, que está nas mãos de um homem ferido, ciumento e interessado em convencer, alguém que organiza os fatos para sustentar uma acusação que jamais consegue provar. A genialidade do livro está em que a culpa de Capitu permanece para sempre indecidível: Machado construiu a narrativa de modo que nunca saberemos se houve traição ou apenas a fantasia de um espírito atormentado. O leitor é convocado a julgar e, ao julgar, percebe-se cúmplice ou vítima da retórica de Bentinho. Começar por Dom Casmurro é, portanto, descobrir de imediato a contribuição mais característica do autor e experimentar uma leitura que não se encerra na última página, mas pede releitura e debate.
Há ainda um apelo mais imediato a favor desse início. O Alienista convida pela inteligência; Dom Casmurro prende pela emoção. Amor, ciúme, memória, traição e a dúvida que corrói uma vida inteira são matérias que agarram o leitor pela gola antes que ele tenha tempo de admirar a técnica. Para quem teme que um clássico do século XIX seja frio ou distante, a paixão de Bentinho desfaz o receio na primeira dezena de páginas.
No fim, a escolha talvez dependa menos da obra do que do temperamento de quem se aproxima. Ao leitor cauteloso, que prefere reconhecer o terreno antes de se embrenhar, O Alienista funciona como um vestíbulo perfeito: breve, luminoso e suficiente para revelar se aquela ironia o conquista. Ao leitor disposto a mergulhar de uma vez no que Machado tem de mais ambicioso e ambíguo, Dom Casmurro oferece a experiência sem atenuantes, com a vantagem de já entregar a chave do escritor maduro. Não há, a rigor, escolha errada. Os dois caminhos conduzem ao mesmo lugar — àquela espécie rara de assombro que se sente ao perceber que um autor de mais de cem anos atrás continua, com uma calma assustadora, falando de nós.
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